AS PRIMEIRAS 48 HORAS DEPOIS DO PRIMEIRO TURNO

AS PRIMEIRAS 48 HORAS DEPOIS DO PRIMEIRO TURNO
Quarenta e oito horas depois de o Brasil mudar de lugar nas urnas, o Supremo mudou de temperatura. Coincidência existe. Mas, em Brasília, ela costuma ter agenda.
Domingo, 4 de outubro. Flávio Bolsonaro termina o primeiro turno na frente: 47,03% contra 45,16% de Lula. São 2,2 milhões de votos de diferença. É o placar de 2022 virado do avesso: há quatro anos, quem saiu na frente foi o petista.
O número sozinho já seria notícia. Mas a notícia de verdade está em outro lugar: em quem votou em quem. E em quem, de repente, começou a soltar a mão.
O mapa que a esquerda desenhou e as urnas apagaram
Durante duas décadas, o PT vendeu ao país uma geografia moral simples: a esquerda mora na periferia; a direita, nos condomínios. O pobre vota com o coração; o rico, com o bolso. Uma caricatura preconceituosa e confortável, repetida em editoriais, salas de aula e mesas de bar até virar dogma. Quem nunca ouviu um “onde já se viu preto de direita?” Eu já.
Em 2026, o dogma tropeçou no próprio CEP.
Em Sapopemba, na Zona Leste de São Paulo, Flávio venceu Lula por 45,2% a 43,8%. Houve viradas também em Cangaíba, Ponte Rasa, Jaçanã e Lauzane Paulista: bairros de ônibus lotado, de boleto vencido, de mãe que volta do trabalho pensando no preço da carne de uma janta que precisa render, no mínimo, até o almoço do dia seguinte.
Enquanto isso, Lula seguiu firme em Vila Mariana, Pinheiros, Perdizes e no Leblon. Bairros de café especial, de varanda gourmet, de ciclovia que leva do prédio à academia.
Não, isso não transforma Flávio no “candidato dos pobres”, nem Lula no “candidato dos ricos”. Mas a fotografia mudou. E a pergunta incômoda é outra: por que o trabalhador da periferia está deixando de acreditar que a esquerda fala por ele?
Rio das Pedras: onde a caixa-d’água paga imposto
A resposta talvez esteja numa caixa-d’água.
Em Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, moradores denunciam que criminosos cobram R$ 50 por mês por cada caixa-d’água instalada nas casas. É extorsão em meio à disputa de território na região. E não para por aí: há cobrança sobre luz, água, gás e internet.
O morador paga para morar. Paga para ter água. Paga por “proteção” contra quem cobra a proteção. E paga porque não tem a quem recorrer.
Além de crime, isso é um Estado paralelo com sistema tributário próprio: sem Constituição, sem tribunal, sem recurso. É a privatização da vida pelo crime.
E aqui a discussão liberal deixa de ser teoria de livro. Adam Smith nunca defendeu um Estado ausente. Defendeu um Estado que cumpra seu dever mais elementar: proteger a vida, a liberdade e a propriedade de quem trabalha. Quando o Estado abandona esse posto, o espaço não fica vazio. Alguém ocupa. E esse alguém não emite nota fiscal.
O eleitor de Rio das Pedras não leu Sowell. Mas sabe exatamente quanto custa a ausência de lei: R$ 50 por mês, por caixa-d’água. E medo, muito medo.
72,6%: o número que ninguém quis comentar
Nas 243 seções eleitorais instaladas em presídios e unidades socioeducativas cujos resultados puderam ser apurados, Lula obteve 72,6% dos votos válidos. Flávio, 23,3%.
Precisão importa, então vamos a ela. Quem vota nessas seções são presos provisórios, ainda sem condenação definitiva, e adolescentes internados. Condenados com trânsito em julgado têm os direitos políticos suspensos. Chamar isso de “voto dos criminosos” é juridicamente errado, e a direita não precisa de atalhos falsos quando tem argumentos verdadeiros.
Mas o dado continua dizendo algo. Numa eleição em que a segurança pública virou tema central, o sistema prisional e a periferia ameaçada pelo crime organizado votaram em direções opostas. O morador de Rio das Pedras que paga taxa ao miliciano e o detento que aguarda julgamento olharam para as mesmas urnas e viram países diferentes.
Isso não é detalhe estatístico. É um retrato moral do Brasil de 2026.
A esquerda perdeu seus sobrenomes
As urnas não foram duras só no topo da chapa.
Fernando Haddad perdeu São Paulo para Tarcísio de Freitas por mais de 26 pontos: 62,65% a 36,42%. Marina Silva, Simone Tebet, Randolfe Rodrigues, Soraya Thronicke e Gleisi Hoffmann ficam sem mandato. Nomes históricos do PT, como José Dirceu e Rui Falcão, também não voltam.
Ainda assim, o PT não desapareceu. Elegeu 70 deputados federais, dois a mais que os 68 de 2022. O partido renovou parte da bancada, mas não perdeu a base.
Perdeu algo mais difícil de repor: as vozes que davam rosto, verniz e trânsito institucional ao lulismo. A ministra do clima, a ex-candidata do “centro responsável”, o senador das CPIs, a presidente do partido. Do outro lado, o PL chega a 2027 com 121 deputados e 28 senadores.
E é no Senado que a história fica interessante.
Então, o Supremo engasgou
Segundo levantamento da Folha, 51 dos 81 senadores da próxima legislatura já defenderam, com diferentes ressalvas, o impeachment de ministros do STF. A condenação exige 54. Faltam três.
É essa a distância entre a Corte intocável e a Corte questionável.
E foi exatamente nesse cenário que, nas 48 horas seguintes ao primeiro turno, veio a público uma sequência curiosa:
- Alexandre de Moraes autorizou a progressão de Débora Rodrigues dos Santos, a “Débora do Batom”, para o regime semiaberto.
- Moraes encaminhou à PGR um novo pedido de Flávio para visitar o pai, Jair Bolsonaro.
- Tornou-se público o arquivamento, por insuficiência de provas, da investigação contra Marcos do Val, Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Ednardo Raposo.
- Gilmar Mendes arquivou a apuração preliminar contra Alfredo Gaspar, vice na chapa de Flávio.
A CNN chamou de “quatro sinais” ao bolsonarismo. O Correio Braziliense registrou que o meio político leu ali uma mudança de temperatura entre o Supremo e a direita.
Sejamos rigorosos, porque o rigor é a única arma que não falha: nada disso prova acordo. Cada decisão tem fundamento formal, e quase todas acompanham parecer da PGR. Algumas, inclusive, foram assinadas antes do domingo e só ganharam luz depois. Débora pode, sim, ter cumprido os requisitos. As provas contra os investigados podem, sim, ser insuficientes.
Mas há uma pergunta que nenhum fundamento jurídico responde: por que só agora?
Por que o alívio para a cabeleireira do batom, tratada como símbolo de ameaça à República, só ganhou as manchetes justamente quando o Senado ficou pesado? Por que um arquivamento assinado em setembro esperou as urnas para vir a público?
Em política, o calendário também assina as decisões.
O medo não tem o rosto de Flávio
O que inquieta o establishment não é só a possibilidade de Flávio subir a rampa do Planalto. É o que sobe com ele.
Um Senado disposto a usar as ferramentas que a Constituição sempre lhe deu. Um eleitorado popular que já não pede licença para votar à direita. Uma esquerda sem seus velhos fiadores. E uma Corte que passou anos agindo como se estivesse acima da política e, de repente, descobre que pode estar acima da disputa eleitoral, mas não acima da Constituição, do Senado e dos freios e contrapesos.
Quando o poder percebe que vai ser fiscalizado, costuma ficar subitamente razoável. Isso tem nome em qualquer manual de ciência política, e não é “evolução institucional”. É instinto de sobrevivência.
Lula sente o mesmo vento. Venceu com folga no Nordeste e resistiu em redutos urbanos, mas viu Flávio dominar o Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste. Pela primeira vez em muito tempo, o PT entra num segundo turno sem a certeza de que “o povo” é seu por herança.
Sem triunfalismo, com convicção
Seria um erro tratar o segundo turno como fato consumado. A diferença é estreita, o Nordeste é uma muralha e mais de 33 milhões de brasileiros não foram votar. Esse é o verdadeiro eleitorado em disputa até o dia 25. Falta pouco. Mas algo já está decidido, e não depende de quem vencer.
O Brasil descobriu que a mãe da periferia que paga taxa ao miliciano não pertence a nenhum partido. Que o trabalhador da Zona Leste pode votar por segurança, emprego e fé sem pedir a bênção de sindicato. Que nenhuma instituição, nem mesmo a de toga, é grande demais para ser questionada.
As urnas não encerraram essa conversa.
Apenas mostraram que o país já não aceita ser explicado por quem nunca precisou pagar pela própria caixa-d’água.

