Pesquisa global: os grandes temas que afligem o mundo
Uma pesquisa com 35 mil pessoas em 34 países revela um mundo assustado, cansado de superpotências e disposto a cooperar, desde que alguém prove que funciona. O que, talvez, sugira a inauguração de outra superpotência.
O que chama a atenção é que, enquanto a maioria das pesquisas fala de países, esta fala do mundo.
O instituto britânico Focaldata, sob encomenda da Rockefeller Foundation, publicou o estudo Seeking Security and Opportunity in a Stormy World: A 34-Country Survey. Foram ouvidas 35.399 pessoas em 34 países entre julho e agosto de 2026.
A pergunta de fundo é simples e incômoda: num mundo multicultural, quais são as apreensões em comum?
O mundo piorou
Quase sete em cada dez entrevistados (69%) dizem que o mundo piorou no último ano. Mas quando a pergunta se aproxima de casa, o drama encolhe: 60% dizem que o próprio país piorou e só 34% dizem o mesmo da própria vida.
Quanto mais distante, maior o pessimismo. Percentual que diz que as coisas pioraram no último ano. Vejamos:

Quanto mais longe o objeto, maior a angústia. Sofremos mais com o mundo que rola na tela do que com o que vivemos em nosso quintal. Não é que os problemas sejam imaginários, mas a percepção é cada vez mais mediada pelo algoritmo, pela manchete e pela guerra transmitida ao vivo na timeline.
E o dado mais curioso (ou não): os países ricos são os mais deprimidos. Costumo chamar isso de “elite culpada”. Na Europa Ocidental, 81% acham que o mundo piorou. Na África Subsaariana, 50%. Quem tem mais a perder parece temer mais. Quem já atravessou tempestades parece ter mais resiliência.
O otimismo econômico também caiu: de 42% para 38% na mediana global, com recuo em 27 dos 34 países. Na Índia, a queda foi de 26 pontos; na China, de 16.
Segurança primeiro: a realidade bateu à porta
Quando questionadas sobre os três temas mais importantes para os países resolverem juntos, as pessoas foram taxativas: prevenir guerras e conflitos lidera com 44%, onze pontos à frente do segundo colocado. É o tema número um em 21 dos 34 países e está entre os três primeiros em todos. No Japão, chega a 62%.

Para o grande público, a ordem é clara: primeiro a paz, depois o resto. A população entendeu que, sem segurança, não há mercado, nem escola, nem liberdade que se sustente.
Agora, o dado que deveria tirar o sono de quem trabalha com direitos humanos: “democracia e direitos humanos” aparece com apenas 24%, e “liberdade de expressão e crença” com 14%.
Isso não significa que o mundo virou as costas para a liberdade. Cada pessoa escolhia apenas três temas entre treze, e direitos humanos perdem na fila para a guerra e para o bolso. A lição é de estratégia, não de desânimo: quem defende a liberdade precisa traduzi-la na língua da urgência. Preso político não é só uma questão moral. É sintoma de regime instável, de crise migratória, de crime organizado com carimbo estatal. Para nós, defensores dos direitos humanos, é preciso falar de liberdade atrelada à segurança.
E há um contraponto: 56% dizem que a política externa do seu país deve refletir valores nacionais, mesmo que isso custe bons acordos. Isso reflete um viés moral que ainda habita a alma do mundo.
Liderança mundial: o mundo aceita um país-líder?
Aqui mora o achado mais geopolítico da pesquisa. Perguntadas sobre quem gostariam de ver liderando o mundo, as pessoas preferem a ideia de condomínio: Canadá (60%), Japão (58%), Austrália e Reino Unido (55%). Os Estados Unidos ficam com 39%. A China, com 37%.
E tem mais: 61% apoiariam uma coalizão de países enfrentando problemas globais mesmo sem EUA e China. Só 12% são contra.

Nos países em desenvolvimento, os Estados Unidos aparecem como ameaça maior que a China em 14 de 16 países. Na Europa, o medo tem outro endereço: Moscou. Na Polônia, 78% veem a Rússia como ameaça grave. E a China é temida justamente por quem a conhece de perto: Filipinas (70%), Japão (67%) e Coreia do Sul (62%).
Duas observações a serem consideradas sobre essas respostas:
Primeiro: O Canadá lidera a simpatia justamente porque não ameaça ninguém. Mas simpatia não segura porta-aviões, nem negocia cessar-fogo, nem banca a reconstrução de um país. A pesquisa mede quem o mundo aceitaria no comando, não quem tem força para resolver.
Segundo: apoiar “uma coalizão sem EUA e China” numa pesquisa custa zero. A pergunta que importa é outra: quem paga a conta?
Ainda assim, o recado é nítido. O mundo não quer um líder-chefe. Quer um condomínio bem administrado. E condomínio, sabemos, precisa de regras, governança, compliance e, claro, um síndico. E aqui parece que chegamos à imagem de alguém que centraliza justamente o que a pesquisa diz querer evitar: um chefe.
Instituições: confiança em alta, paciência em baixa
Contra a narrativa de que o multilateralismo está morto, a confiança nas seis instituições acompanhadas subiu em relação a 2025. A OMS chegou a 69%, a ONU a 62%. Banco Mundial (55%), FMI (51%) e OMC (57%) passaram de minoria para a maioria. O Tribunal Penal Internacional foi a 54%.

Mas essa confiança tem condição. Oito em cada dez pessoas (81%) dizem que apoiariam mais a cooperação internacional se ela provasse que resolve problemas. Só 65% dizem o mesmo se ela fosse mais barata. Ou seja: o mundo não está pedindo menos instituições. Está pedindo instituições que entreguem: menos teoria, mais prática.
Quem está por trás da pesquisa?
Toda pesquisa séria merece leitura séria, inclusive com ceticismo. Aqui vão alguns pontos de cautela:
- Quem financia tem agenda. O estudo integra a campanha Build the Shared Future, da Rockefeller Foundation. O instituto é respeitado e membro do British Polling Council, mas o desenho das perguntas tem direção.
- “Global” é mediana de países, não de pessoas. O Uruguai pesa o mesmo que a Índia.
- Duas rodadas não fazem tendência. Muitas variações ficam perto da margem de erro.
Nada disso invalida o estudo. Só lembra que número também tem sotaque.
E o Brasil?
O Brasil aparece na pesquisa como um país mais otimista que a média e com uma autoimagem maior que a sua reputação.
O otimismo econômico para os próximos cinco anos subiu 7 pontos, para 49%, uma das poucas altas da amostra. 65% apoiam cooperar com outros países mesmo cedendo alguns interesses nacionais. E, diante da pergunta sobre ajuda externa, o Brasil marcou o maior índice dos 34 países: 82% querem reverter os cortes. Um número a ler com cautela, já que a pergunta vinha precedida da estimativa de que os cortes podem causar mais de 9 milhões de mortes até 2030.
No campo das ameaças, 59% dos brasileiros veem os Estados Unidos como ameaça grave, acima da Rússia (51%) e da China (40%). Ao mesmo tempo, o Brasil teve a maior oposição da amostra à ideia de uma coalizão sem EUA e China: 20%.
Um país que desconfia de Washington, mas não quer ficar fora da sala onde Washington está. Ambivalência bem brasileira.
E o dado que deveria ser lido em voz alta no Itamaraty: só 36% dos entrevistados no mundo se sentem confortáveis com o Brasil exercendo um papel de liderança global. Entre os países ricos, 26%. Queremos protagonismo, mas o mundo ainda nos assiste da arquibancada. Liderança não se proclama; se conquista com previsibilidade, coerência e coragem para chamar ditadura de ditadura.
O que importa para o mundo
Se eu tivesse que resumir 35 mil vozes em três linhas, seria assim:
- Segurança vem antes de tudo. Sem paz, nenhuma outra agenda se sustenta.
- Cooperação, sim, mas com resultado. O mundo quer menos discurso e mais entrega.
- Ninguém quer um dono do mundo. Quer regras claras, parceiros confiáveis e instituições que prestem contas.
No fundo, a pesquisa confirma algo que a tradição liberal sempre soube: a liberdade não sobrevive no caos, e a ordem não se legitima sem liberdade. Entre o medo e a esperança, o mundo de 2026 escolheu um caminho do meio: cooperar de olhos abertos.
A tempestade é real. Mas ainda há quem prefira construir abrigo a escolher um tirano para segurar o guarda-chuva.
Fonte: Focaldata / The Rockefeller Foundation, “Seeking Security and Opportunity in a Stormy World: A 34-Country Survey”, setembro de 2026. 35.399 entrevistas em 34 países, de 21 de julho a 5 de agosto de 2026.

