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Planejamento sistêmico: o caminho para políticas públicas eficazes no Brasil

5 de maio de 2025

O Brasil é mestre em escrever planos e péssimo em colocá-los de pé. Nosso país não sofre por falta de leis, planos e diagnósticos. Pelo contrário, o sofrimento nasce justamente porque quase nada disso sai do papel. Em 2024, dos 1.912 municípios brasileiros obrigados a elaborar e aprovar Planos de Mobilidade Urbana, apenas 20,8% cumpriram a exigência legal, mesmo com o prazo já vencido para as maiores cidades. Essa estatística não é apenas um número: é um retrato da ineficiência estatal diante de problemas que exigem planejamento, integração e ação coordenada.

Temos planos excelentes, mas com pouca ou nenhuma efetividade. Essa realidade revela um padrão perverso: seguimos tratando problemas públicos como se fossem isolados, quando, na verdade, estão todos interligados e precisam de uma abordagem intersetorial para serem efetivamente colocados em prática. É preciso olhar para a governança, o orçamento, seus efeitos e suas conexões com outras áreas. Enquanto a gestão pública insistir em agir como se cada secretaria operasse em um universo próprio, o país continuará girando em falso.

O preço da fragmentação

É comum vermos municípios reformando escolas enquanto crianças não conseguem chegar até elas por falta de transporte seguro. Ou cidades investindo em policiamento, mas ignorando o fato de que ruas escuras e sem urbanização básica também alimentam a violência. Esses erros não nascem de má intenção, mas de uma lógica ultrapassada: a da política pública fragmentada e desconectada da vida real.

O Brasil possui marcos legais importantes, como o Plano Diretor, o Plano de Mobilidade Urbana e o Estatuto da Metrópole, além de instrumentos orçamentários como o Plano Plurianual (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA). No entanto, quando esses instrumentos não se articulam entre si, tornam-se apenas burocracia. O planejamento técnico existe, mas não gera transformação sem integração entre os setores responsáveis por sua execução.

Soluções isoladas para problemas interdependentes

Planejar uma cidade não pode significar apenas desenhar ruas ou construir ciclovias. Mobilidade, segurança, saúde, habitação, meio ambiente e tecnologia estão todos conectados. Quando ignoramos essa complexidade, desperdiçamos recursos e oportunidades.

O transporte público, por exemplo, pode ser ao mesmo tempo vetor de inclusão, segurança e sustentabilidade. Um sistema de dados pode apoiar tanto o controle de alagamentos quanto a prevenção de crimes. Cada investimento poderia gerar múltiplas soluções, se fosse pensado de forma integrada.

Planejamento sistêmico: o caminho de um Estado estratégico

Pensar de forma sistêmica não significa inflar o Estado. Significa fazê-lo funcionar. Significa priorizar o impacto, a inteligência institucional e a sinergia entre políticas públicas. Um Estado liberal, para ser eficiente, precisa ser também coordenado.

Estamos falando de um olhar enfático sobre como o planejamento ocorre, e como ele se torna ineficaz quando feito de maneira isolada, sem articulação entre orçamento, governança, impacto social e estratégia. A integração entre áreas não exige mais orçamento, exige mais competência. Não demanda mais pessoal, mas sim articulação entre os que já estão na máquina pública. Exige menos improviso e mais método. Menos vaidade institucional e mais visão de futuro.

Conclusão

Enquanto o Estado brasileiro continuar tratando seus setores como ilhas, a população seguirá pagando caro por políticas públicas mal planejadas e desconectadas da realidade. Integrar políticas públicas não é um luxo técnico — é uma necessidade estratégica.

Se queremos um Brasil mais justo, seguro e funcional, precisamos começar pela base: fazer com que as partes do Estado conversem entre si. Compreender a importância de um pensamento sistêmico é o primeiro passo para reconhecer que problemas interligados exigem soluções integradas. O país não precisa de mais planos. Precisa fazer com que os planos existentes deixem de competir e passem a cooperar. Só assim teremos um Estado menos inchado, mais inteligente e verdadeiramente transformador.

Camilla Teixeira

Cientista Política formada pela UNIRIO. especialista em políticas públicas. Diretora de Núcleos do LOLA Brasil.
Atua com fortalecimento institucional e planejamento urbano.



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