Skip to content

Acompanhe Conteúdos Exclusivos

O voto como instrumento de transformação social

11 de julho de 2025

Na democracia, o exercício do poder se define não pelas estratégias do político, mas pelo ato consciente do voto popular. A cada eleição, milhões de brasileiros têm nas mãos a chance de decidir os rumos do país, mas ainda subestimam esse poder. Quando a população se distancia da política, entrega seu futuro nas mãos de quem deveria estar sendo vigiado. A democracia só faz sentido com participação popular, e é justamente essa ausência que enfraquece o sistema e sustenta a ineficiência do Estado.

Vivemos um tempo marcado pela descrença na política. O sentimento de frustração, alimentado por escândalos, polarização e má gestão, afasta o cidadão do debate público. Mas quanto mais esse afastamento se perpetua, mais distante o povo fica das decisões que impactam sua vida. É preciso resgatar a consciência de que nós escolhemos os políticos, e que a política é reflexo direto da sociedade que a elege. O voto não é apenas um ato formal. É uma ferramenta de transformação social concreta, ainda que muitas vezes negligenciada.

Um dos principais sintomas desse distanciamento está na invisibilidade dos poderes Legislativo e Judiciário. A população costuma supervalorizar a figura do Presidente da República, ignorando a importância de senadores, deputados e até vereadores. A consequência é grave: milhões de brasileiros votam sem saber para quê serve o cargo ou quem está disputando. Uma pesquisa do Datafolha revelou que cerca de 65% dos eleitores não lembram quem votou para deputado federal e senador. E entre os que lembram, apenas uma parte acompanha minimamente a atuação de seus representantes. No segundo turno das eleições de 2022, a abstenção chegou a 20,6%, com mais de 32 milhões de pessoas que sequer compareceram às urnas.

Esse desconhecimento fragiliza a democracia. Quando a sociedade ignora os responsáveis por legislar e fiscalizar, abre-se espaço para mandatos sem transparência, sem prestação de contas e com baixa responsabilização. A falta de acompanhamento popular gera um ciclo vicioso: políticos pouco comprometidos seguem impunes, e a população continua descrente da política. Interromper esse ciclo passa, necessariamente, por entender que o voto é a porta de entrada para qualquer processo de transformação.

O voto não é apenas sobre candidatos, mas sobre projetos de sociedade. É ele que define quais leis serão discutidas, quais prioridades serão atendidas, quais políticas públicas serão financiadas e quais serão ignoradas. Entender isso é fundamental para avançarmos em políticas que melhorem a vida das pessoas, especialmente nos serviços essenciais. O caso recente da crise no INSS, por exemplo, escancarou os efeitos da má gestão e da falta de controle institucional. Após o escândalo que revelou o desvio de mais de R$ 6,3 bilhões em descontos indevidos de aposentadorias, milhões de brasileiros seguem sem resposta sobre
quando serão ressarcidos. Isso não é apenas uma falha de gestão. É reflexo de escolhas políticas.

O mesmo pode ser dito sobre os embates recentes entre o Congresso e o Executivo, como a crise em torno da alteração no IOF. Essas decisões impactam diretamente a economia, a arrecadação e o cotidiano das pessoas, mas passam despercebidas para quem não acompanha o papel dos parlamentares e não entende o funcionamento das instituições.

A discussão em torno do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) serve como um excelente termômetro da importância do Legislativo no cotidiano econômico dos brasileiros. O IOF é um imposto federal que incide sobre diversas operações de crédito, câmbio, seguro e valores mobiliários. Ou seja, ele está presente em muitas das transações financeiras que fazemos, desde empréstimos e financiamentos, passando pela compra de moeda estrangeira, até o uso do cartão de crédito no exterior e a aplicação em alguns investimentos. Alterações nas alíquotas ou na forma de cobrança do IOF, propostas e debatidas no Congresso Nacional, impactam diretamente o custo dessas operações para empresas e cidadãos.

Quando há embates entre o Congresso e o Executivo sobre esse imposto, como vimos em momentos de crise fiscal ou de necessidade de ajuste nas contas públicas, a população é quem, em última instância, sente os efeitos, seja por um aumento no custo do crédito ou por um impacto na rentabilidade de certas aplicações financeiras. Isso reforça a necessidade de acompanhar as discussões parlamentares, pois elas moldam diretamente o ambiente econômico em que vivemos.

No momento em que o povo desconhece seus representantes, ele perde poder. A alienação política não é neutra. Ela é conveniente para manter o poder concentrado nas mãos de poucos. Por isso, incentivar o conhecimento político é uma tarefa urgente. Saber quem são os candidatos, quais são suas propostas, como votam no Congresso e que interesses defendem é um passo fundamental para uma democracia mais forte. Combater a desinformação e despertar o interesse da sociedade é o primeiro passo para ocupar o espaço que historicamente nos foi negado.

Durante muitos anos, o direito ao voto foi negado a mulheres, negros, analfabetos e pobres. A conquista do sufrágio universal foi uma vitória importante, e hoje o voto é um direito de todos. Mas de nada adianta ter o direito se não o exercermos com consciência. Votar é mais do que um gesto individual. É um ato coletivo, um pacto social.

A transformação do país começa nas pequenas atitudes. Começa quando escolhemos nos informar, quando decidimos nos importar, quando cobramos nossos representantes. Participar da política não é apenas ir às urnas de quatro em quatro anos. É acompanhar, fiscalizar e exigir coerência entre discurso e prática. O Brasil só será mais justo quando tivermos uma sociedade mais atenta, mais crítica e mais consciente do poder que carrega. Porque, no fim das contas, é o povo quem tem o poder. E o voto é a ferramenta mais direta de fazer esse poder valer.

Camilla Teixeira

Cientista Política formada pela UNIRIO. especialista em políticas públicas. Diretora de Núcleos do LOLA Brasil.
Atua com fortalecimento institucional e planejamento urbano.



Deixe um comentário

Seu email não será publicado.

quinze + 11 =