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Renda fixa ou aposta?

24 de julho de 2025

O crédito privado precisa de mais transparência!

Sugestão do autor: se você entende pouco ou nada de investimentos, leia a introdução.
Se você é um investidor que já investe em crédito privado, você pode pular para a parte Invista naquilo que você conhece.

Introdução

Para quem não me conhece ainda, meu nome é João Grassini e trabalho no mercado financeiro como assessor de investimentos há 8 anos. Nesse período, vi muitas mudanças positivas, aprendi o que funciona na prática e o que não funciona, troquei experiências com diferentes perfis de investidores e procurei sempre comunicar conceitos de forma simples. De todas as aprendizagens que tive nestes 8 anos, acima de tudo, aprendi a filtrar o joio do trigo. E é justamente esse filtro que considero a habilidade mais valiosa da minha trajetória. Hoje é a primeira vez que vou compartilhar algumas ideias simples que podem ajudar em muito a você também fazer investimentos financeiros com mais segurança.

Por que gosto de renda fixa?

Um dos investimentos que sou um grande fã são os títulos de renda fixa. No Brasil, o investimento em renda fixa é bastante comum e vem se sofisticando com a evolução do mercado financeiro. O país tem um histórico de juros altos que favorece esse tipo de investimento e o conceito do investimento em renda fixa é relativamente simples para o cidadão comum: você aplica o dinheiro, o dinheiro aplicado fica rendendo e eventualmente a aplicação vence e você teve um crescimento patrimonial. Trazer uma melhoria em cima de um produto que a pessoa já conhece é mais fácil do que trazer produtos com características muito diferentes para a pessoa investir.

Dentro das principais divisões de categoria dos títulos de renda fixa, podemos colocar o emissor do título como uma forma fundamental de separar os títulos. Nessa divisão, temos 3 principais categorias:

Títulos públicos: emitidos pelo Governo Federal (ex: Tesouro Direto)

Títulos bancários: emitidos por bancos (ex: LCI, LCA, CDB)

Crédito privado: emitidos por empresas (ex: CRI, CRA, Debêntures)

A categoria que abordo neste texto é o crédito privado, o mais delicado do ponto de vista de transparência.

Toda essa definição das principais categorias é importante para o assunto que vamos delinear adiante. Além disso, fica a pergunta para você: o que é um título de renda fixa? Para tornar o conceito mais simples possível, a melhor definição é: uma aplicação em que emprestamos nosso dinheiro para uma organização(o emissor do título) para receber uma determinada taxa de rendimento por um determinado tempo.

Invista naquilo que você conhece!

Agora que temos clareza que a aplicação de renda fixa nada é mais uma dívida do emissor com os investidores, podemos avançar no assunto principal deste texto. O crédito privado é uma categoria de renda fixa que tem se tornado cada vez mais popular e têm tido ampla distribuição no mercado financeiro, atualmente sendo distribuídos em grandes bancos, em contraste com a época que eram populares apenas nas corretoras. O produto se populariza, mais demanda pelo produto aparece conforme o investidor se familiariza com a aplicação e a oferta aumenta também. Com todo esse avanço, pode se presumir que o investidor se sofisticou e  agora está mais ciente dos riscos do produto, correto?

Infelizmente, o crédito privado está sendo vítima de uma prática que considero imprudente e talvez até nociva para o mercado como um todo. Você emprestaria dinheiro a um desconhecido?Você emprestaria seu dinheiro a alguém que não conhece ou que tem histórico de calote?

Provavelmente não.

Mas é isso que muitos investidores fazem ao aplicar em títulos de crédito privado sem saber quem é a empresa emissora, qual sua saúde financeira ou se ela tem condições de pagar o que prometeu. Tenho visto uma adesão incrível dos investidores que emprestam seu dinheiro através de aplicações em crédito privado de emissores que não abrem informações completas a respeito de sua saúde financeira. O resultado disso são surpresas desagradáveis em investimentos que pareciam simples, mas escondiam risco e complexidade grande na qualidade dos emissores. Estamos falando de aplicações que renderiam alguns % a mais ao ano sem imposto de renda, mas na prática acabaram diminuindo em valores consideráveis o patrimônio dos clientes.

O que faz mais diferença na vida de um investidor: ganhar 2% a mais no ano ou perder 80% do valor investido?

Em 8 anos de assessoria, nunca conheci um investidor que tivesse recebido informações claras sobre a qualidade dos títulos de crédito privado da sua carteira.

Será que dei azar? Ou será que o mercado financeiro está falhando na sua responsabilidade com os investidores? E os investidores, quando vão começar a cobrar seus atendimentos?

Caso tenha faltado clareza, eu vou deixar mais claro. Eu acredito que a maioria dos investidores pessoa física, seus gerentes de banco e outros profissionais no mercado de investimentos invistam em crédito privado sem saber a qualidade da empresa que vai receber o dinheiro na hora da aplicação. Os investidores não sabem direito como estão as empresas para as quais estão enviando os recursos deles.

Crédito privado: onde exatamente está o problema?

O problema tem duas naturezas distintas:

1. Falta total de transparência dos emissores.

Algumas empresas simplesmente não divulgam nada sobre sua saúde financeira.

Você não sabe se elas estão endividadas, se têm receita, lucro ou prejuízo. E isso não é ilegal — mas é extremamente arriscado.Existem raros casos de empresas que não publicam, mas que são acessíveis para informar os dados mediante solicitação, mas até hoje foram menos de 5 empresas que encontrei nesta situação.

2. Falta de acompanhamento do investidor e profissionais do mercado.

Outras empresas até divulgam seus dados — e mostram que estão com prejuízos consecutivos, endividamento alto e baixo desempenho.

Mas, mesmo assim, seus títulos são distribuídos normalmente por profissionais que, em muitos casos, não são pagos para dizer “não”. Investidores que não se interessam em questionar a qualidade dos ativos que estão sendo distribuídos e que só olham para taxa também são parte do problema.

O que perguntar antes de investir em crédito privado?

Diante da oferta de novos títulos de crédito privado, o investidor pode questionar alguns elementos antes de simplesmente sair aplicando em uma super taxa.

A empresa que emitiu este título publica seus resultados financeiros de lucro, receita, dívidas e etc. em algum lugar da internet? Pergunte ao seu atendimento onde está o link na internet onde isso pode ser conferido.

Essa empresa é considerada muito endividada ou pouco?

Essa empresa tem dado lucro ultimamente?

Caso você queira procurar por conta própria esses dados, procure no google o nome da empresa e “central de resultados RI” ou dados financeiros. Se não achou, o mais provável é que os dados não sejam públicos e estejam te oferecendo algo que não pode ser acompanhado.

Se a empresa não publica os dados, minha sugestão é rejeitar imediatamente toda e qualquer oferta. Se eu não posso afirmar que um investimento é bom e tem uma segurança razoável para mim, não há motivo para fazê-lo, principalmente dado o risco retorno sendo ganhar um pouco mais ou perder tudo ou quase tudo. Também fica o questionamento: por que a pessoa que te atende está oferecendo produtos dos quais ela não tem domínio? Um dos maiores investidores de todos os tempos, Warren Buffet, tem uma frase categórica sobre esse assunto:

“Invista naquilo que você conhece.”

E o investimento que já fiz? O que fazer?

As mesmas perguntas valem para os títulos que você já tem na carteira.

Você consegue encontrar os dados da Debênture da Petrobras que está em sua carteira?

Sabe se o CRA da empresa XYZ está saudável financeiramente?

Se não tem essas respostas, você pode estar investindo às cegas e sem acompanhamento do seu atendimento.

Crédito privado sem acompanhamento ou sem transparência não vale a pena!

Se nem você, nem seu assessor conseguem explicar quem é o emissor e como ele está, isso não é investimento. É aposta.

É necessário que os investidores comecem a rejeitar este tipo de investimento até a transparência se tornar obrigatória para todas as empresas. Somente o fracasso de adesão das ofertas pode reverter essa situação. Muitos não sabem, mas, tecnicamente, não é obrigatório informar estes dados financeiros para o público geral. Qual a segurança que um investidor pessoa física como eu e você podemos ter com as empresas que não fazem questão de nos manter informados?

Aqui faço um adendo: mesmo que a  empresa publique os dados durante a oferta pública em que ela distribui seus títulos, faria sentido conferir também se ela faz essa publicação fora do período de oferta também, pois nada adianta ter os dados no momento do investimento e depois não ter como acompanhar a saúde financeira da empresa. Empresas podem pegar o dinheiro emprestado em um momento bom e depois ter uma piora de sua saúde financeira. Acompanhar é necessário e se a empresa parou de divulgar, talvez seja hora de sair do investimento.

Depois de toda essa crítica que fiz ao mercado de crédito privado, te faço a pergunta: É completamente errado investir em empresas que não dão lucro, são endividadas ou não tem transparência? Na verdade, contanto que isso seja feito com ciência dos riscos, não é. O problema que vejo é a falta de questionamento entre profissionais e investidores do mercado financeiro como um todo. Isso permite que um grande número de empresas sem transparência façam distribuições dos títulos sem nenhum problema de adesão às ofertas. E nisso reside o risco que resulta em algumas grandes tragédias financeiras, conforme relatado pelo jornalista Ricardo Feltrin:

Esse evento não é um problema de um banco específico. É um problema sistêmico. Cabe a você, investidor, entender se está sendo bem acompanhado porque até grandes instituições cometem erros. Fica aqui meu manifesto: crédito privado sem acompanhamento ou transparência não vale a pena. Compartilhe essa mensagem com um amigo ou conhecido que já investe e vamos tornar o mercado de investimentos um pouco mais saudável.

Quer conversar sobre esse tema?
Me encontra no Instagram: @joaograssini

PS:Gratidão às minhas incríveis revisoras!

João Grassini

João Grassini

Administrador de Empresas (UFRGS),
Assessor de investimentos na Marco Investimentos, Coordenação de investimentos em Renda Fixa e Fundos

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