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Da Dívida à Liberdade: a jornada de uma mulher brasileira rumo à independência econômica

16 de setembro de 2025

Maria acorda cedo. O despertador toca às 5h30, mas o sono não foi tranquilo. A cada mensagem no celular que chega, o coração dispara: será o banco? Será a cobrança da fatura em atraso? Entre o café preto e o pão amanhecido, ela calcula mentalmente: “Se eu pagar a conta de luz, não sobra para o gás. Se eu comprar o gás, não consigo mandar o dinheiro da escola da filha.” Esse malabarismo diário é a realidade de milhões de mulheres brasileiras.

Mas o que parece uma condenação pode, na verdade, ser o início de uma virada de chave. É exatamente nesses momentos que a economia comportamental nos ensina algo valioso: a forma como pensamos e sentimos sobre o dinheiro molda nossas escolhas — e pode aprisionar ou libertar.

O peso invisível da dívida

Dívida não é apenas número. É sentimento. É vergonha de atender o telefone, é medo de abrir o aplicativo do banco, é a sensação de fracasso quando chega a fatura. A psicologia econômica mostra que o estresse financeiro ativa no cérebro a mesma área ligada à sobrevivência: é como se cada boleto fosse um predador à espreita.

E quando estamos em “modo sobrevivência”, tomamos decisões mais impulsivas, buscando alívio imediato em vez de estratégias de longo prazo. É por isso que tanta gente aceita parcelamentos abusivos ou continua usando o cartão como se fosse extensão da renda. Não é falta de inteligência — é o peso emocional da dívida sequestrando a razão.

O primeiro passo: clareza

Maria, nossa personagem, só começou sua transformação quando enfrentou o monstro de frente. Ela pegou uma folha em branco, anotou tudo: cartão de crédito, empréstimo consignado, carnê da loja, conta atrasada da internet. Doeu, sim. Mas também trouxe clareza.

Esse é o ponto de partida para qualquer mulher endividada: mapear a situação real, sem julgamentos. Saber exatamente quanto se deve, para quem, em que condições. Porque só o que é visto pode ser transformado.

O segundo passo: pequenas vitórias

A economia comportamental tem um conceito chamado efeito progresso. Quando sentimos que estamos avançando, mesmo que pouco, ganhamos motivação para continuar. Maria decidiu começar pela menor dívida, aquela que ela poderia quitar mais rápido. Quando riscou a primeira pendência da lista, experimentou algo poderoso: esperança.

Não é sobre números grandiosos de imediato. É sobre criar um ciclo de vitórias que reforça a confiança. Ao invés de tentar resolver tudo de uma vez, a estratégia é construir conquistas passo a passo.

O terceiro passo: renegociação e estratégia

No Brasil, muitas mulheres acreditam que o banco é um inimigo implacável. Mas a verdade é que nenhuma instituição financeira ganha quando o cliente simplesmente não paga. Negociar é possível e necessário. Maria descobriu que, ao ligar e expor sua realidade, conseguiu descontos significativos nos juros.

Mais do que renegociar, ela aprendeu a criar um plano financeiro simples: 50% do que recebia era para necessidades básicas, 30% para dívidas e 20% para recomeçar uma reserva. Pode parecer pouco, mas mesmo R$ 20 guardados criam um músculo de autonomia.

O quarto passo: mudança de mentalidade

Não existe liberdade econômica sem mudança de mentalidade. Maria sempre repetia: “Eu não sei lidar com dinheiro.” Essa crença era um grilhão invisível. A virada começou quando ela trocou a frase por: “Estou aprendendo a lidar com dinheiro.” Parece detalhe, mas palavras moldam identidades.

Estudos mostram que quando alguém se enxerga como “aprendiz em progresso”, aumenta sua resiliência diante de erros. Ao invés de desistir no primeiro deslize, a pessoa segue ajustando a rota.

O quinto passo: comunidade e apoio

A solidão é outro peso da dívida. Muitas mulheres escondem a situação até das amigas mais próximas, por vergonha. Maria quebrou esse ciclo ao entrar em um grupo de apoio para mulheres endividadas no bairro. Ali, encontrou duas coisas que mudaram seu destino: acolhimento e exemplos reais de superação.

O apoio coletivo reduz a ansiedade e aumenta a disciplina. Afinal, é mais fácil manter um compromisso quando alguém torce por você.

O sexto passo: novos horizontes

Com dívidas renegociadas, pequenas reservas e uma mentalidade fortalecida, Maria começou a sonhar novamente. Primeiro, buscou cursos gratuitos de capacitação. Depois, descobriu habilidades que poderiam ser monetizadas — fez bolos para vender no trabalho, ofereceu serviços de consultoria simples em sua área.

Esse é o ponto da virada: a liberdade econômica não é apenas sair do vermelho, mas construir caminhos para multiplicar renda e gerar prosperidade.

Conclusão: da prisão à liberdade

A história de Maria é, na verdade, a história de milhares de mulheres brasileiras. Cada uma, em sua cozinha, em sua fila do banco, em sua luta silenciosa contra a dívida. Mas também cada uma com a possibilidade de escrever um novo capítulo.

A transformação não começa quando a dívida some. Ela começa quando a mulher decide que não será definida por ela.

E aqui está o segredo da economia comportamental: não basta entender de juros compostos e planilhas. É preciso cuidar das emoções, das crenças e da forma como se encara o dinheiro. Porque a verdadeira liberdade econômica é, antes de tudo, uma liberdade emocional.

Maria hoje ainda tem parcelas a pagar. Mas já não vive com medo do telefone. Seu maior patrimônio não está no extrato: está na confiança de que pode, sim, construir uma vida de escolhas — e não de obrigações.

Suzanna Assayag

Especialista em Desenvolvimento Humano, Liderança e Finanças Comportamentais, com mais de 15 anos de experiência no setor bancário.

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