Por que a queda do regime dos Aiatolás importa para a liberdade religiosa no Irã e no Mundo

Por que a queda do regime dos Aiatolás importa para a liberdade religiosa no Irã e no Mundo
Desde a virada do ano, o Irã tem sido o centro das atenções no cenário mundial, após milhares de iranianos terem tomado as ruas de Teerã em protesto contra o regime dos aiatolás. As manifestações culminaram em um verdadeiro massacre por parte do governo, que matou mais de quarenta mil jovens pelo simples fato de se expressarem publicamente por seu anseio de viverem em um país livre da teocracia islâmica que tem oprimido a população por mais de quatro décadas.
Não somente a grande mídia deixou de dar a real importância para a referida matança, como também escolheu ignorar a ameaça que o Irã representa para o mundo. No entanto, Israel e os Estados Unidos não desdenharam dos intentos do regime, que já se aproximava perigosamente de desenvolver, finalmente, armamento nuclear. Seguidos dos ataques israelenses-americanos contra a estrutura militar iraniana, o Irã mostrou, ainda, sua capacidade armamentista ao tentar atingir com mísseis uma base britânica em uma ilha a quase 4 mil quilômetros; deixando claro seu potencial de alvejar alvos em grandes distâncias, num raio que pode alcançar países europeus, tais quais Alemanha, Itália, Áustria, República Tcheca e, talvez, até mesmo Bélgica, França e Reino Unido. Ora, o alerta tornou-se ainda mais claro e barulhento: o que não seriam capazes de fazer contra outras nações esses governates reiligiosos fanáticos que já mataram 40 mil opositores do seu próprio povo, caso possuíssem tecnologia nuclear capaz de atingir alvos em outros continentes?
Contudo, a força bélica do Irã não é a única ameaça desse regime, uma vez que este sido o maior financiador de terrorismo no mundo e apoiador de perseguição contra cristãos durante muito tempo e em muitos lugares. É sabido que o governo do Irã apoia grupos como Hamas e Hezbollah, sem citar outras organizações inimigas do Ocidente, de Israel e da fé cristã, financiando armas, treinamento e coordenando uma rede de grupos armados islâmicos conhecida como “Eixo da Resistência”. É especulado, ainda, que o Irã apoia células do Hezbollah na África Ocidental e o IMN — Movimento Islâmico na Nigéria —, além de realizar esforços diplomáticos no continente africano ao expandir influência e vender armas a governos, como os do Mali, Burkina Faso ou Níger, países com notória perseguição contra a Igreja por parte de movimentos jihadistas, em que o Estado falha (deliberadamente?) em proteger os cristãos. Assim, fica claro que o fim do regime iraniano dos aiatolás teria um grande impacto positivo na vida de muitos cristãos, não somente no Oriente Médio.
A queda desse poder diabólico resultaria, primeiramente, em liberdade para cristãos dentro de seu próprio território, que passariam a gozar de direitos humanos básicos que lhes são negados desde a revolução de 1979. Apenas estando na pele dessas pessoas seríamos capazes de entender a profundidade do sofrimento que passam. Passo, então, a partir deste ponto, a relatar histórias que ouvi da própria boca de iranianos.
Ano passado, após ter ministrado sobre o tema da perseguição contra cristãos ao redor do mundo em uma igreja de língua inglesa em Portugal, uma mulher iraniana de meia-idade veio falar comigo em lágrimas para compartilhar a história de sua mãe. Ela contou que, quando sua mãe se converteu, foi levada, presa e torturada por agentes da Guarda Revolucionária. O crime dela foi ter se convertido ao Evangelho. No Irã, igrejas são permitidas de forma restrita, e apenas pessoas de famílias que já eram cristãs antes da revolução de 1979 podem professar a fé em Jesus Cristo. Deixar o Islã e tornar-se cristão é crime de apostasia.
Um amigo iraniano, que hoje vive na Inglaterra, compartilhou comigo (um dia antes de eu escrever este texto) a situação do Irã e de sua família durante a guerra. Hoje esse irmão em Cristo, outrora perseguido por sua fé em seu próprio país, encontra-se com sua família onde pode professar o cristianismo sem medo, mas preserva um forte testemunho de perseverança em meio ao sofrimento perpetrado pelo regime dos aiatolás. Sobre o atual conflito com Israel e Estados Unidos, ele me explicou que, independentemente do desfecho, haverá derramamento de sangue. Por um lado, se o regime não for completamente derrotado, continuará a perseguir e executar seus opositores. Por outro lado, há um grande número de iranianos com uma profunda sede de vingança pelo sofrimento que lhes foi imposto por todos esses anos, e a queda dos aiatolás será a oportunidade de finalmente saciarem esse desejo.
Ele conta que no Irã não há uma única pessoa que não conheça alguém que foi preso, morto ou torturado por esse regime. O sangue dessas pessoas clama por justiça, e os vingadores, nas próprias palavras desse irmão iraniano, não são cristãos dispostos a perdoar e buscar reconciliação. São cidadãos que não professam nem o Islã, nem o cristianismo, e anseiam pelo dia em que poderão fazer justiça com as próprias mãos contra aqueles que perseguiram, torturaram e mataram muitos de seus entes queridos.
Em segundo lugar, esse irmão na fé me relatou sobre sua própria situação familiar. Desde o início das manifestações e da guerra, ele não consegue contato com a parte de sua família que ainda se encontra no Irã. Nos últimos dois meses, contou-me ele, o máximo que conseguiu foi uma comunicação rápida de um minuto com sua mãe. Cada dia ele acorda sem saber como estão.
Poderíamos, ainda, trazer várias outras histórias e informações sobre como o regime dos aiatolás tem sido um instrumento de opressão, sofrimento e sistemática violação de direitos humanos no Irã e em outras regiões onde exerce influência. O país ocupa a décima posição no ranking de perseguição da World Watch List. Devemos, portanto, ver com bons olhos as imensas perdas que o regime teve desde o início do ano diante de seu enfraquecimento interno e dos ataques externos, pois isso pode ser o início da sua queda permanente. Entretanto, há também muito o que lamentar, desde a morte de quarenta mil jovens que perderam suas vidas de forma bárbara, até os efeitos indesejados da guerra que se prolonga, bem como a incerteza sobre se haverá mudança no Irã e subsequente transição para um governo democrático e justo.
Uma verdade, porém, é inegável: a destruição do regime teocrático no Irã tornaria o mundo mais seguro e significaria o fim do sofrimento de milhões de cristãos no próprio país, de cidadãos que fazem parte da diáspora iraniana espalhada em outros continentes, bem como de muitas pessoas que vivem em países onde o terrorismo é apoiado e financiado pelos aiatolás.
O fim da República Islâmica do Irã seria, de fato, um respiro para a liberdade religiosa.

