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o Encontro entre a Física Quântica e o Liberalismo de Adam Smith 

11 de dezembro de 2025

A ciência clássica acreditava viver em um universo previsível. O modelo newtoniano tratava a realidade como uma engrenagem exata, em que cada causa produzia um efeito calculável. Essa visão ultrapassou os limites da física e contaminou a política, a economia e a administração pública. O Estado passou a enxergar a sociedade como um mecanismo a ser regulado, um sistema em que bastaria ajustar alavancas, impor regras e calcular resultados. Essa foi a origem do planejador social, o tecnocrata que acredita poder controlar o comportamento humano como quem mede o movimento de um corpo.

A Física Quântica, no entanto, desfez essa ilusão de controle. Ao estudar a estrutura mais íntima da matéria, revelou que a natureza não obedece a uma lógica mecânica, mas a um conjunto de probabilidades. O princípio da incerteza de Heisenberg demonstrou que não é possível determinar, ao mesmo tempo, a posição e a velocidade de uma partícula. O simples ato de observar altera o fenômeno. O universo, portanto, não é um relógio, mas um campo de interações instáveis e imprevisíveis.

Esse mesmo princípio pode ser aplicado à sociedade. Cada vez que o Estado tenta medir, ajustar ou prever o comportamento humano, altera o próprio sistema que pretende controlar. A economia e a política não são objetos inertes, são compostas por indivíduos conscientes, dotados de liberdade, criatividade e reação. O resultado da intervenção raramente é o esperado. Assim como na física quântica, o observador muda o fenômeno apenas por tentar observá-lo.

A crise econômica global provocada pelas medidas centralizadoras durante a pandemia é o exemplo mais recente dessa dinâmica. Ao tentar congelar a economia, isolar os fluxos de produção e conter artificialmente a atividade humana, governos trataram o sistema social como uma equação linear, previsível e manipulável. O resultado foi a desorganização da cadeia produtiva, inflação, endividamento público e um desequilíbrio estrutural que ainda persiste. A tentativa de eliminar o caos apenas o multiplicou.

Assim, o erro é epistemológico antes de ser político, como o determinismo clássico não explica o comportamento da matéria, o determinismo estatal não explica, nem sustenta, o comportamento humano. Intervenções forçadas, ainda que bem-intencionadas, geram instabilidade porque tentam impor rigidez a um organismo cuja força está na espontaneidade.

É nesse ponto que a filosofia liberal de Adam Smith se encontra com a física moderna. A “mão invisível” descrita em A Riqueza das Nações não é um mito econômico, mas a descrição intuitiva de um fenômeno natural: a ordem que emerge do caos. Quando indivíduos agem livremente, buscando seus próprios fins, criam redes de interação que produzem equilíbrio sem necessidade de comando central. Portanto, como o mundo quântico encontra harmonia em meio à incerteza, o mercado encontra eficiência em meio à liberdade.

O liberalismo, nesse sentido, é a tradução moral do princípio quântico. Ele reconhece que a complexidade não se controla, apenas se compreende. O poder estatal, quando tenta impor previsibilidade ao comportamento humano, comete o mesmo erro do físico clássico que acredita poder determinar o destino de uma partícula com exatidão. A realidade, física ou social, resiste a esse tipo de pretensão.

Não se trata de afirmar que a Física Quântica “comprova” o pensamento de Adam Smith. As duas áreas pertencem a campos distintos do conhecimento: uma, científica; a outra, moral e econômica. O ponto de convergência está apenas na analogia estrutural: tanto na matéria quanto na sociedade, a ordem emerge da liberdade e da interação espontânea, e não do controle externo. O paralelismo serve como metáfora explicativa, não como equivalência empírica ou causal.

Sistemas vivos, sejam atômicos ou humanos, não suportam o excesso de controle. A estabilidade surge não da rigidez, mas da interação entre forças autônomas. Isso porque, como o elétron se comporta de maneira imprevisível até ser observado, a sociedade reage de forma caótica quando é vigiada, regulamentada e constrangida. O resultado é o colapso das dinâmicas espontâneas que mantêm o sistema em movimento.

O Estado moderno, ao tentar prever e controlar tudo, da economia à moral, reproduz a arrogância da física ultrapassada. Busca eliminar a incerteza, mas é a incerteza que mantém a vida social em constante adaptação. A liberdade é, portanto, o equivalente político da probabilidade quântica: a condição que permite que o sistema continue existindo.

A convergência entre física e filosofia revela uma mesma verdade: a ordem natural depende da liberdade. Nem o universo nem a sociedade funcionam sob coerção. Em ambos os casos, o controle absoluto leva à entropia, o ponto em que a energia se esgota e o sistema morre.

Em termos práticos, a incerteza quântica e a liberdade econômica são faces de um mesmo princípio: a realidade, seja material ou social, não obedece a comandos, mas a interações. A tentativa de eliminar o acaso resulta em estagnação; a disposição de conviver com ele gera progresso. A ciência abandonou o sonho do determinismo; o pensamento político, contudo, ainda luta para abandonar o sonho do controle.

A Física Quântica confirma, com a precisão das equações, o que Adam Smith formulou com a intuição filosófica do século XVIII: a ordem espontânea não é um acidente, é a própria estrutura da realidade. Onde há liberdade, há movimento; onde há movimento, há vida.

Maria Eduarda Vargas


Diretora de Projetos e Coordenadora do Students for Liberty

@maria__svargas

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