O Orçamento de 2026 e a Urgência do Voto Consciente

Por Camilla Teixeira, Cientista Política pela UNIRIO e mestranda em Administração pela UDESC
Na preparação das festas de fim de ano, o Congresso Nacional aprovou a Proposta de Lei Orçamentária Anual de 2026. O número impressiona: cerca de R$3,53 trilhões em receitas e despesas totais, o maior orçamento da história do Brasil em termos nominais. Trata-se de um valor exorbitante que precisa ser desmistificado. Afinal, estamos diante de uma das maiores previsões de arrecadação já registradas no país, o que impõe uma pergunta central: qual será, de fato, o destino do dinheiro dos brasileiros?
Em um país que arrecada muito e tributa intensamente sua população, causa estranhamento que essa arrecadação elevada não se converta, na mesma proporção, em serviços públicos de qualidade, investimento produtivo e melhoria concreta da vida das pessoas.
Um orçamento dessa proporção não significa, necessariamente, maior capacidade de ação do Estado. Ao contrário. O que o Orçamento de 2026 revela é um Estado cada vez mais engessado, com pouquíssima margem de escolha e quase nenhuma capacidade de investir de forma estratégica no futuro do país. Estamos falando de decisões que impactam diretamente a situação econômica, o desenvolvimento nacional e a qualidade de vida da população brasileira, com efeitos que podem ser difíceis, senão impossíveis, de reverter.
Grande parte desse orçamento está comprometida com despesas obrigatórias, como a previdência e, sobretudo, o serviço da dívida pública. Sobra pouco espaço para aquilo que deveria ser o coração de qualquer projeto de desenvolvimento, o investimento em políticas públicas! As chamadas despesas discricionárias, aquelas sobre as quais o governo tem alguma liberdade para decidir onde e como gastar, representam algo em torno de 8% do total do orçamento, cerca de R$280 bilhões. É com esse valor limitado que se financiam políticas de saúde, educação, ciência, tecnologia, infraestrutura, assistência social e inovação.
Esse espaço exíguo ajuda a explicar cortes profundos e preocupantes. As universidades federais, por exemplo, sofreram reduções que somam centenas de milhões de reais, colocando em risco bolsas, pesquisas científicas e programas de permanência estudantil. A ciência e a tecnologia, áreas essenciais para qualquer país que almeje soberania e crescimento sustentável, seguem entre as mais sacrificadas. A saúde pública, já pressionada por demandas crescentes, enfrenta restrições que afetam diretamente o atendimento à população. Quando o orçamento aperta, o futuro é sempre o primeiro a ser sacrificado.
Enquanto isso, outras rubricas crescem com notável facilidade. As emendas parlamentares alcançaram o valor recorde de R$61 bilhões, ampliando o poder individual de parlamentares sobre a execução do orçamento. O Fundo Eleitoral, por sua vez, foi inflado para o ciclo de 2026, alcançando novamente cifras bilionárias, em patamar superior aos últimos pleitos, garantindo recursos abundantes para campanhas em um país que corta verbas de pesquisa, hospitais e universidades. Trata-se de uma escolha política clara, que privilegia a lógica eleitoral e o fortalecimento de currais políticos, em detrimento de investimentos estruturantes.
Esse arranjo não é neutro. Ele aprofunda desigualdades regionais, reduz a capacidade do Estado de formular políticas públicas inovadoras e limita qualquer resposta criativa a problemas históricos, como pobreza, exclusão produtiva e atraso tecnológico. Um orçamento cada vez mais inchado e, ao mesmo tempo, cada vez menos flexível corrói a própria ideia de planejamento nacional.
Não podemos ignorar o que esse orçamento esconde por trás de seus números, a normalização de práticas que alimentam esquemas de corrupção, a perpetuação de elites políticas oligárquicas e o uso do dinheiro público como moeda de troca de poder. Quando a maior parte dos recursos serve para manter o sistema funcionando para si mesmo, a bandeira que se ergue é manchada pelo abandono do futuro coletivo.
O ano de 2026 será decisivo. Além de ser um ano eleitoral, será um momento de escolha sobre que país queremos construir. Apesar de todas as distorções da nossa democracia, é ela que ainda nos rege e nos oferece um instrumento fundamental de mudança. O voto é uma ferramenta de transformação social. É por meio dele que podemos reagir a uma estrutura estatal que hoje corrói a vitalidade, a dignidade e a esperança dos brasileiros.
Se ansiamos por mudança, nossa atitude não pode ser indiferente. A ação começa pela consciência, pela compreensão da realidade e pela recusa em normalizar um modelo que compromete o futuro. Começa pelo voto, pelo exercício da democracia e pela coragem de exigir um orçamento que sirva ao desenvolvimento, e não à reprodução de privilégios.

