Game Over para a Liberdade?
Jogos são arte, ponto final, assim como livros, filmes ou uma pintura incrível. Eles mergulham em cada canto da realidade — amor, guerra, alegria e, sim, coisas pesadas como violência sexual. A função da arte é segurar um espelho para o mundo, mostrando o que existe nele, seja um crime de um vilão numa cena ou uma história de redenção. Mas quando o Collective Shout, um grupo australiano com uma cruzada moral, pressionou Visa, Mastercard e PayPal para atacar plataformas como Steam e Itch.io, eles não miraram apenas jogos como No Mercy, com suas vibes de simulação de abuso que ninguém em sã consciência defende. Eles causaram um estrago feio, derrubando jogos que não tinham nada a ver com a cruzada deles. Veja o Consume Me, um jogo indie comovente sobre transtornos alimentares, * puff *, sumiu da busca do Itch.io só por ter uma tag de “adulto”.
A Farsa da “Proteção da Marca”
Visa e Mastercard dizem que isso é sobre “proteção da marca” (para manter seus logotipos brilhando, longe de qualquer coisa muito pesada). Mas vamos chamar pelo nome: é uma farsa. Essas empresas processam pagamentos para sites adultos com conteúdos muito mais explícitos que a maioria dos jogos. Mas quando o Collective Shout bate na porta com suas cartas abertas e jogadas de marketing, de repente os jogos são o problema? O Itch.io foi tão pressionado que escondeu TODO o conteúdo NSFW da noite pro dia em 24 de julho de 2025 (removendo até jogos de quem já havia comprado), e o Steam reescreveu suas regras em 15 de julho para agradar as processadoras. Mas essas mesmas processadoras nem piscam para o OnlyFans ou outros sites adultos que faturam alto.
Isso não é sobre proteger marcas. As processadoras de pagamento não ligam para consistência, elas querem evitar processos e má publicidade. A campanha do Collective Shout fez dos jogos um alvo fácil, então Visa e Mastercard desceram o banhammer. Mas se eles estão tão preocupados com conteúdo “prejudicial”, por que não vão atrás dos filmes adultos com o mesmo fervor? Dois pesos, duas medidas. Simples assim, e está ferrando criadores e fãs que só querem fazer ou jogar arte que fala com eles.
A Liberdade de Expressão Está Sendo Nerfada
É aqui que a coisa fica assustadora. Jogos são arte, protegidos como liberdade de expressão (pelo menos em lugares como os EUA, onde a Suprema Corte confirmou isso em 2011). Mas Visa, Mastercard e PayPal não são o governo; são empresas privadas que podem sufocar plataformas cortando seu dinheiro. É exatamente isso que está acontecendo. É censura, só que com um logotipo corporativo em vez de um carimbo do governo. E não é só sobre jogos. Plataformas como o DLsite no Japão foram atingidas por vender mangás e desenhos adultos, forçadas a censurar ou perder o processamento de pagamentos. Se eles podem ir atrás de jogos e arte, o que os impede de mirar livros, filmes ou até música depois?
Uma petição com 48 mil assinaturas (até o momento que escrevo esse texto) está chamando isso de absurdo. Se o Collective Shout pode banir jogos por temas maduros, o que vem depois? Um grupo dizendo que violência com armas em Call of Duty é ruim para as crianças? Ou que jogos de terror como Resident Evil são assustadores demais? Caramba, será que alguém pode decidir que um livro sobre guerra é muito “problemático” por mostrar violência? (Se games realmente causam violência, que game Hitler jogava?) Do jeito que as coisas vão, não me surpreenderia se Sauron fosse reescrito como um ativista incompreendido ou se o Mario virasse vilão por pisar em Goombas.
O Que Vem Depois? A Batalha Final da Censura
A vitória do Collective Shout não é algo isolado: é um manual. Qualquer grupo com um megafone grande o suficiente pode pressionar as processadoras de pagamento para atacar conteúdo legal. Imagina um grupo dizendo, “Armas em jogos estão ensinando as crianças a atirar!” Eles poderiam fazer o mesmo truque, e de repente GTA ou DOOM some do Steam. Ou que tal jogos políticos? Um título como Papers, Please, que aborda imigração, poderia ser marcado se alguém o chamar de “divisivo”. O problema é que as processadoras de pagamento não ligam para nuances. Elas usam sistemas automáticos que sinalizam qualquer coisa com palavras-chave como “violência” ou “sexo”, então até um jogo com uma cena mostrando o crime de um vilão é banido. Não é justo, e não está certo.
Os grandões como a Activision podem revidar, mas os pequenos desenvolvedores no Itch.io? Estão fritos se seu jogo for desindexado. E não é só sobre jogos: vídeos, imagens, qualquer coisa digital está em risco.
Vamos Lutar pela Liberdade
Olha, não estou dizendo que jogos como No Mercy merecem passe livre. Se eles cruzam linhas que a sociedade não aceita, tudo bem, derrubem! Mas não joguem o bebê fora com a água do banho. A arte precisa mostrar ao mundo como ele é: bagunçado, sombrio, real. Processadoras de pagamento bancando a polícia moral é um jogo perigoso. É censura disfarçada de “proteção da marca”, escolhendo vencedores e perdedores com base em quem grita mais alto ou tem os bolsos mais fundos.
A gente precisa reagir, assinando aquelas petições (48 mil e contando não é pouca coisa). E, quem sabe, talvez a gente precise de leis para impedir que processadoras de pagamento ajam como ditadores digitais. Porque, se não fizermos nada, a próxima batalha não vai ser só num jogo — vai ser pelo nosso direito de criar, jogar e falar livremente. Então, qual vai ser, galera? Proteger nosso legado cultural e contar novas histórias, ou deixar os censores apertarem o “game over” na nossa liberdade?

Adelar Martins
Aluno da grande escola autodidata da vida, Adel é videomaker, fotógrafo, músico, geek e autista com hiperfoco em arte.

