Domínio do Crime, Silêncio do Estado: A Soberania em Colapso na América Latina

Uma realidade paralela está em curso na América Latina. Em vários países da região, milhões de pessoas vivem em territórios onde o Estado não tem mais controle. Nessas áreas, quem dita as regras são organizações criminosas armadas. Não há polícia, não há justiça, não há governo. O que existe são grupos que cobram impostos ilegais, impõem toque de recolher, recrutam adolescentes e controlam o cotidiano com base no medo.
No Brasil, essa realidade ficou ainda mais evidente após a megaoperação policial realizada no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, no dia 2 de novembro de 2025. A operação mobilizou mais de 1.000 agentes das forças estaduais e federais para retomar o controle de um território há anos dominado por facções criminosas. A ação revelou ao país uma verdade que milhões de brasileiros já conhecem: existem áreas onde o Estado simplesmente não existe.
E mesmo depois da operação, a violência continua. No dia 14 de novembro de 2025, dois irmãos de 13 e 16 anos foram decapitados por ordem do Comando Vermelho, uma das maiores facções do país. A execução foi filmada e o vídeo circulou entre criminosos como forma de intimidação. A mãe só conseguiu reconhecer os filhos pelas imagens. Isso não aconteceu em zona de guerra. Aconteceu dentro do território brasileiro, onde o crime dita as regras.
Hoje, entre 50 e 60 milhões de brasileiros vivem em regiões dominadas por facções. Nomes como Comando Vermelho, Primeiro Comando da Capital (PCC) e Terceiro Comando Puro funcionam como poderes paralelos em favelas, cidades pequenas, zonas rurais e rodovias. Nessas áreas, comerciantes precisam pagar para trabalhar. Crianças são aliciadas. Moradores vivem com medo constante. Água, gás e internet são controlados pelo crime.
Esse não é um fenômeno isolado. A Universidade de Cambridge estima que entre 77 e 100 milhões de pessoas na América Latina já vivam sob o domínio de grupos criminosos. Na Venezuela, a facção Tren de Aragua opera dentro e fora do país, em aliança com grupos brasileiros. Imigrantes que fogem do regime de Nicolás Maduro são perseguidos pela mesma facção. Em El Salvador, o Estado travou uma guerra direta contra duas gangues que aterrorizavam o país há décadas: a Mara Salvatrucha (MS-13) e a Barrio 18. Ambas são hoje classificadas como organizações terroristas pelos Estados Unidos.
Não se trata mais apenas de segurança pública. Trata-se de soberania. Um país que não controla seu próprio território já não é plenamente soberano. E quando o crime financia regimes autoritários ou infiltra instituições públicas, o problema deixa de ser local. Vira uma ameaça regional.
A América Latina precisa de uma resposta firme. Países como os Estados Unidos já reconheceram organizações criminosas como ameaças transnacionais e adotaram medidas duras contra elas. O Brasil começa a discutir uma mudança legal urgente. O projeto de lei 1283 de 2025 cria o crime de dominação territorial armada e permite enquadrar essas facções como organizações terroristas. A proposta aumenta penas, autoriza o uso das Forças Armadas e dá à Polícia Federal poder de ação.
Nenhuma sociedade sobrevive quando o Estado se ausenta. Nenhuma democracia é plena quando milhões vivem sob o domínio do fuzil. Nenhuma nação pode aceitar que bairros inteiros sejam governados por criminosos armados enquanto o governo assiste de longe.
A América Latina está pedindo socorro. O mundo precisa entender o que está em jogo. Não é só segurança. É liberdade. É soberania. É o direito básico de viver sob a proteção da lei.

