Nossa Relação com o Dinheiro: Entre Emoções, Crenças e Escolhas
O dinheiro faz parte da vida de todos nós. Ele está presente nos pequenos gestos do dia a dia – no pão que compramos pela manhã, no transporte para o trabalho, nas contas que pagamos, nos sonhos que queremos realizar. Mas, apesar de tão presente, é curioso como a maioria das pessoas nunca parou para refletir profundamente sobre sua relação com o dinheiro.
Será que lidamos com ele de forma consciente e estratégica, ou apenas repetimos padrões herdados da família e da sociedade? Até que ponto nossas emoções e crenças determinam as decisões que tomamos? E, sobretudo, será que estamos usando o dinheiro como ferramenta para alcançar nossos sonhos ou estamos deixando que ele nos controle?
Essas são perguntas fundamentais. E, ao longo deste artigo, vamos explorar como nossas escolhas financeiras refletem quem somos, como podemos identificar armadilhas emocionais e hábitos que nos sabotam, e de que maneira alinhar nossa gestão financeira com nossos valores e princípios de vida.
1. O Dinheiro Como Espelho de Nossas Crenças e Emoções
Desde cedo, aprendemos a lidar com o dinheiro de maneira indireta. Muitas vezes, a educação financeira que recebemos vem dos exemplos de nossos pais – positivos ou negativos. De acordo com a teoria da aprendizagem social, grande parte de nossa aprendizagem é feita por meio da observação e da repetição do que vivenciamos. Sendo assim, muito do que aprendemos vem dos modelos familiares.
Isso significa que, se crescemos em um lar onde falar de dinheiro era tabu, é provável que na vida adulta tenhamos dificuldade em dialogar sobre finanças. Se vimos brigas constantes por causa de dívidas, podemos associar dinheiro a algo negativo. Se, ao contrário, vimos disciplina e planejamento, podemos carregar essas práticas adiante.
Mas não se trata apenas de aprendizado racional. Como mostrou Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia, em seu livro Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, nossas decisões financeiras muitas vezes são guiadas por processos automáticos, intuitivos e emocionais, mais do que por análises racionais. O desejo de comprar algo, o medo de perder uma oportunidade ou a ansiedade diante de uma conta inesperada ativam gatilhos que nem sempre controlamos.
Essa dimensão emocional é muitas vezes negligenciada. Achamos que falhar em finanças é “falta de matemática” ou “desorganização”. Mas a verdade é que as emoções podem sabotar até mesmo quem domina conceitos financeiros. Quantos economistas,contadores e administradores não se endividam porque, no momento da decisão, a emoção falou mais alto que a razão?
Reconhecer que dinheiro não é apenas número, mas também emoção, é o primeiro passo para transformar nossa relação com ele.
2. O Dinheiro e a Realização de Sonhos
Sonhar é essencial. Os sonhos dão sentido à vida e nos motivam a seguir em frente. Mas sonhar, por si só, não basta. É preciso transformar sonhos em projetos. É preciso fazer algo para que o sonho deixe de ser apenas um sonho e se transforme em realidade – principalmente os que dependem de recursos financeiros.
Aqui está uma grande virada de chave: em vez de enxergar o dinheiro como problema, podemos vê-lo como ferramenta para tornar sonhos concretos. Quer viajar, comprar uma casa, abrir um negócio ou se aposentar com tranquilidade? Tudo isso exige planejamento financeiro.
George Clason, no clássico O Homem Mais Rico da Babilônia, escreveu: “Um orçamento é a ferramenta que garante que você viva dentro de seus meios e ainda poupe para os desejos do futuro.” Ele entendia, desde 1926, que sonhos sem disciplina se tornam apenas frustrações.
Transformar sonhos em projetos significa:
- Definir o que você quer de forma clara: não apenas “quero um carro”, mas “quero um carro popular, usado, de até R$ 30 mil, em dois anos”.
- Criar um plano de ação: quanto você precisa poupar por mês, de onde virão os recursos, o que precisará ajustar no orçamento.
- Estabelecer metas realistas: prometer guardar R$ 5.000 por mês quando sua renda é R$ 4.000 é receita para a frustração.
- Acompanhar e ajustar o plano: revisar periodicamente se está no caminho certo.
- Celebrar conquistas intermediárias: cada pequena vitória alimenta a motivação.
Sonhar é gratuito, mas realizar custa. E custa disciplina, tempo e escolhas.
3. Autoconhecimento Financeiro: O Diagnóstico Pessoal
Não existe gestão sem diagnóstico. Antes de traçar um plano, é preciso entender onde você está.
É necessário fazer uma autoavaliação da sua saúde financeira: se você tem reserva de emergência, se paga as contas em dia, se consegue se preparar para o futuro. Essa reflexão ajuda a identificar seus pontos fortes e fracos.
Em outras palavras: o que você sabe sobre sua própria relação com o dinheiro?
Richard Thaler, outro Nobel de Economia e autor de Nudge, mostra que muitas vezes temos um “comportamento míope”: focamos apenas no presente, ignorando as consequências de longo prazo. Esse viés cognitivo nos leva a gastar no impulso, a procrastinar decisões importantes e a evitar encarar a realidade financeira.
Mas fugir não resolve. O diagnóstico financeiro é como um check-up médico: pode revelar problemas, mas também abre portas para soluções. Pergunte-se:
- Quanto ganho e quanto gasto por mês?
- Onde estão meus maiores desperdícios?
- Tenho dívidas? Com que taxas e prazos?
- Se perdesse minha fonte de renda hoje, por quanto tempo conseguiria me sustentar?
- Estou poupando para objetivos futuros?
As respostas podem ser desconfortáveis, mas são libertadoras. Porque, a partir delas, você começa a assumir o controle.
4. Escolhas, Necessidades e Desejos
Uma das partes mais difíceis da relação com o dinheiro é diferenciar necessidades de desejos. Necessidade é aquilo que garante nossa sobrevivência e bem-estar básico: alimentação, moradia, saúde, transporte. Desejo é tudo aquilo que vai além do essencial e que pode ser adiado ou repensado.
No entanto, vivemos em uma sociedade que constantemente empurra desejos como se fossem necessidades. A publicidade, as redes sociais e a comparação com os outros reforçam a ideia de que “precisamos” do celular mais moderno, da roupa da moda, da viagem internacional.
É importante ressaltar que as necessidades e desejos têm o poder de beneficiar ou prejudicar sua vida financeira pessoal, a depender do entendimento que você tenha desses dois conceitos e de como costuma agir diante das situações.
E aqui podemos compreender como as escolhas financeiras revelam nossos valores. Se gastar hoje em algo supérfluo significa abrir mão de investir no sonho maior, qual decisão reflete seus princípios?
O psicólogo Walter Mischel, no famoso “teste do marshmallow”, mostrou como a capacidade de adiar recompensas está ligada a maiores chances de sucesso no futuro. O mesmo vale para as finanças: quem aprende a controlar impulsos e fazer trocas intertemporais – consumir menos agora para ter mais depois – conquista estabilidade e liberdade.
5. Alinhar o Dinheiro com os Princípios
Não basta ter dinheiro; é preciso saber usá-lo de forma coerente com seus princípios e valores. Afinal, de que adianta acumular bens se eles não contribuem para uma vida significativa?
Essa é talvez a parte mais profunda da relação com o dinheiro. Ele não é um fim em si mesmo, mas um meio. Como escreveu o educador financeiro Gustavo Cerbasi: “O dinheiro é apenas uma ferramenta para ampliar escolhas.”
Se suas finanças estão alinhadas com seus princípios, você sente paz, mesmo que ainda esteja em construção. Se estão desalinhadas, o dinheiro se torna fonte de estresse, conflito e frustração.
Aqui, vale refletir:
- O uso que faço do meu dinheiro está de acordo com o que considero mais importante?
- Minhas escolhas financeiras refletem meus valores ou apenas minhas vontades imediatas?
- O que estou priorizando: status ou propósito?
Alinhar o dinheiro com os princípios significa viver com mais liberdade. Porque não se trata apenas de ter saldo positivo, mas de dar sentido a cada escolha.
6. O Caminho da Liberdade Financeira
Educar-se financeiramente não significa nunca mais errar, mas aprender a errar menos e a corrigir mais rápido.
Educação financeira é um processo contínuo, que envolve informação, prática e reflexão. Mas, acima de tudo, envolve consciência.
E aqui está a boa notícia: nunca é tarde para começar. O passado não define o futuro. Você pode mudar sua relação com o dinheiro hoje, dando pequenos passos:
- Montando um orçamento simples.
- Criando uma reserva de emergência.
- Pagando dívidas caras primeiro.
- Estudando formas de investir.
- Revisitando seus sonhos e transformando-os em projetos.
Esses passos, repetidos de forma consistente, levam à liberdade financeira – que não é ter milhões no banco, mas poder escolher seu caminho sem ser refém de dívidas, do consumo compulsivo ou do medo do amanhã.
Conclusão: Dinheiro Como Aliado
Nossa relação com o dinheiro reflete, antes de tudo, uma relação consigo mesmo. Envolve crenças herdadas, emoções presentes, escolhas diárias e projetos futuros. É uma mistura de racionalidade e emoção, disciplina e desejo, presente e futuro.
A boa notícia é que, assim como qualquer relacionamento, ela pode ser transformada. Ao reconhecer padrões, fazer um diagnóstico honesto, diferenciar necessidades de desejos e alinhar suas escolhas com seus princípios, você assume o controle.
Como disse certa vez o investidor Warren Buffett: “Não é preciso ser um gênio para ter sucesso financeiro. É preciso disciplina.”
O dinheiro pode ser fonte de ansiedade e frustração. Mas também pode ser uma ferramenta poderosa para a realização de sonhos, a conquista de liberdade e a construção de uma vida com propósito. A escolha é sua.
Lembre-se: ser livre muda tudo.

Francieli Santos
Co-fundadora do Negra Livre
Administradora e Assessora de Investimentos na XP

