Skip to content

Acompanhe Conteúdos Exclusivos

ARMÊNIA: A RESILIÊNCIA DA NAÇÃO CRISTÃ MAIS ANTIGA DA HISTÓRIA

19 de maio de 2026

ARMÊNIA: A RESILIÊNCIA DA NAÇÃO CRISTÃ MAIS ANTIGA DA HISTÓRIA

A história da Armênia, antiga e recente, é riquíssima e digna de ser melhor conhecida. O país não recebe a atenção que merece. Se recebesse, certamente seria tema recorrente de livros e filmes no Ocidente, bem como estaria nas manchetes da grande mídia com mais frequência e, constantemente, seria alvo de discussão nas redes sociais.

No campo da religião, a nação é única em sua história. A Igreja Apostólica Armênia pode ser considerada a mais antiga do mundo em continuidade institucional. No ano 301, a Armênia foi a primeira nação a se declarar cristã, antes mesmo do Édito de Milão, promulgado em 313 d.C. pelos imperadores Constantino I, do Ocidente, e Licínio, do Oriente, que estabeleceu a liberdade religiosa no Império Romano e livrou a Igreja das várias ondas de perseguição impostas aos cristãos desde o primeiro século. 

De acordo com a tradição, as sementes do evangelho na região foram plantadas pelos apóstolos Bartolomeu e Tadeu. São Gregório, o Iluminador, levou o rei Tiríades III a confessar o cristianismo e, em 301, este declarou o país oficialmente cristão. No mesmo ano, foi fundada a Catedral de Etchmiadzin, oficialmente Santa Sé Mãe de Todos os Armênios. Ela é considerada por historiadores e estudiosos como a catedral mais antiga do mundo e foi construída sobre as ruínas de um antigo templo pagão dedicado ao deus Aramazd, simbolizando a transição oficial do país para o cristianismo. O site oficial da Igreja Armênia relata os numerosos desafios que enfrentou desde o século IV, incluindo perseguições ferozes durante o Império Otomano, que culminaram no grande genocídio armênio no início do século passado.¹

O sofrimento do povo armênio no século XX é comparável às atrocidades que os judeus enfrentaram durante o regime nazista na Alemanha. Todavia, raramente ouve-se falar do Genocídio Armênio durante a Primeira Guerra Mundial, cujo número de mortes provavelmente superou um milhão. Pouco mais de cem anos depois, em 2023, outro episódio triste em sua história ocorreu com a expulsão dos cristãos do enclave do Alto Carabaque por forças do exército muçulmano do Azerbaijão. Após meses de cerco, o exército azerbaijano forçou o êxodo de aproximadamente 100 mil pessoas. Iremos nos deter nestes dois eventos históricos. 

A partir da segunda metade do século XIX, a repressão otomana contra os armênios aumentou de forma feroz. Apesar de a Igreja Armênia frequentemente apelar às potências europeias para que interviessem junto às autoridades otomanas, esses apelos caíam em ouvidos surdos, como explicam as fontes oficiais da Igreja Apostólica Armênia. Já no final do século XIX, as autoridades começaram a alistar tribos locais por todo o império, e o governo otomano-turco organizou, enfim, os massacres em 1894-1895 em Sassun e em 1908-1909 em Adana, com o ápice dos assassinatos em massa em 1915. É interessante ressaltar que a definição legal de “genocídio” tomou forma tendo como pano de fundo esse Genocídio Armênio no início do século XX.²

Em 1908, haviam chegado ao poder os Jovens Turcos, que professavam o pan-turanismo, uma ideologia nacionalista turca e secular que priorizava a restauração do império Pan-Turânico. Os armênios, por sua vez, eram vistos como um obstáculo à realização desse projeto. A Primeira Guerra Mundial forneceu o momento oportuno para o Império Otomano-Turco realizar sua solução final: o aniquilamento total do povo armênio. As expressões e métodos similares ao nazismo não eram coincidência, posto que o conceito de limpeza étnica dos Jovens Turcos também foi uma inspiração para Hitler.  Inclusive, uma tradição específica da Alemanha via os armênios como os “Judeus do Oriente”, que eram tipicamente descritos como mercadores exploradores da população trabalhadora da Turquia.³

A diáspora armênia mundial foi resultado desse genocídio. A Igreja Apostólica Armênia afirma que as muitas evidências históricas e relatos comprovam que o Genocídio Armênio foi cuidadosamente organizado e executado de forma sistemática pelo governo otomano-turco da época, e que a própria sobrevivência do povo armênio e de sua Igreja foi posta em risco.⁴ Assim relata:

O genocídio colocou em risco a própria sobrevivência do povo armênio e da Igreja. Um milhão e meio de armênios foram massacrados e os sobreviventes, incluindo milhares de órfãos, buscaram refúgio na Síria, no Líbano e em outros países árabes, que os receberam com compaixão e respeito. Milhares de igrejas, mosteiros, sítios religiosos, escolas e centros comunitários foram destruídos ou confiscados, incluindo propriedades da Igreja, da comunidade e de indivíduos; muitos clérigos foram assassinados; inumeráveis manuscritos e objetos litúrgicos de valor inestimável foram roubados ou destruídos. Um número significativo de armênios foi convertido à força ao Islã, especialmente nas áreas rurais. Assim, o Império Otomano-Turco foi esvaziado de todos os armênios, exceto por uma pequena comunidade em Constantinopla.

Agora, imagine um país que faz fronteira ao sul com o Irã, a oeste com a Turquia e a leste com o Azerbaijão. Um povo cristão isolado em meio a potências islâmicas. Mais de 100 anos depois do Genocídio Armênio, especificamente em dezembro de 2022, foi a vez do seu vizinho ao leste, o Azerbaijão, de maioria muçulmana, sitiar o território armênio do Alto Carabaque, bloqueando o Corredor de Lachin, a única rota terrestre para o enclave a partir da Armênia.

A Ajuda Barnabas, organização britânica que atua em socorro a cristãos perseguidos, reportou à época que os principais líderes da Igreja alertavam para a possibilidade de “uma fome generalizada” entre a população, e que temiam que um novo genocídio armênio já pudesse estar ocorrendo no enclave. A Baronesa Caroline Cox, membro independente da Câmara dos Lordes do Reino Unido e patrona dessa instituição inglesa, descreveu o ocorrido como uma “tragédia dos tempos modernos” e, após uma visita à entrada obstruída do Corredor de Lachin, relatou sua tristeza ao olhar para um comboio de caminhões impedidos de entregar a tão necessária ajuda humanitária a Carabaque.

O Bispo Hovakim Manukyan, em um e-mail para a Ajuda Barnabas, reportou naqueles dias a sua preocupação: “Eles vão limpar toda a região de armênios, destruir a herança cultural armênia e apagar as memórias”. O líder religioso também alertou para a limpeza étnica, e que ninguém estava prestando atenção, relatando outra possível onda de genocídio de armênios em Carabaque. “Há relatos de assassinatos em massa, estupros e torturas de pessoas. Um cenário de crimes de guerra está em curso”, informou o Bispo.”⁵

Essa invasão foi o desdobramento de um conflito prolongado. O Azerbaijão e a Armênia entraram em guerra duas vezes pela região do Alto Carabaque. O primeiro conflito ocorreu no início da década de 1990, logo após o colapso da União Soviética. Em 2020, uma nova guerra eclodiu: após 44 dias de combates, o Azerbaijão reconquistou a maior parte dos territórios ao redor de Carabaque que estavam sob controle armênio desde 1994. Finalmente, em setembro de 2023, o Azerbaijão conquistou o enclave, expulsando mais de 100.000 cristãos da região.

É importante destacar que o Alto Carabaque possui uma densa concentração de templos, mosteiros e monumentos cristãos armênios milenares, que remontam dos séculos IV ao XIII, refletindo a duradoura história da nação cristã mais antiga da história. De acordo com algumas fontes, esses sítios históricos agora têm sido, de fato, sistematicamente destruídos, apagados ou alterados pelo governo muçulmano do Azerbaijão, conforme o Bispo Hovakim Manukyan alertou que aconteceria.

Após 17 séculos, desde que se declarou uma nação cristã, a Armênia continua preservando suas raízes. Hoje, o seu povo sobrevive com sua fé, apesar das muitas guerras, do Genocídio do século passado e da perseguição religiosa por qual tantas vezes passou. A Igreja Apostólica Armênia ainda faz parte da identidade nacional, com 95% da população declarando-se fiel a ela.

¹ Disponível em: https://www.armenianorthodoxchurch.org/en/the-armenian-church/history. Acesso em 14 de maio de 2026.

² Leia sobre o reconhecimento do “genocídio” como crime no Direito Internacional no seguinte artigo: How Genocide Became Recognized in International Law, por Emily Ann Milnes. Disponível em:  https://providencemag.com/2025/12/how-genocide-came-to-be-recognized-in-international-law/. Acesso em 15 de maio de 2026.

³ Disponível em: https://armenianweekly.com/2015/10/30/hitler-ataturk/. Acesso em 14 de maio de 2025.

⁴ Essas e outras informações históricas deste artigo podem ser conferidas no site oficial da Igreja Apostólica Armênia: Disponível em: https://www.armenianorthodoxchurch.org/en/the-armenian-church/history. Acesso em 14 de maio de 2026.

⁵ Disponível em: https://www.barnabasaid.org/br/latest-needs/ajude-os-refugiados-cristaos-armenios-enquanto-fogem-de-alto-carabaque/. Acesso em 15 de maio de 2026.

Warton Hertz

Warton Hertz

Advogado, especialista em Direito Religioso e mestre em Teologia e Ética. É formado em Direito, Teologia e integra o Instituto Brasileiro e o Instituto Europeu de Direito e Religião

Deixe um comentário

Seu email não será publicado.

3 + 16 =