Banco Master, o problema não acabou

Apesar de toda a mídia já cobrir o caso do banco Master e suas variadas fraudes no sistema financeiro com um altíssimo nível de detalhamento, inclusive sobre a vida pessoal de Daniel Vorcaro, a comunicação em torno do assunto é pouco educativa no que diz respeito à prevenção de novas tragédias. No dia a dia do meu trabalho, continuo observando alguns comportamentos repetitivos por parte dos investidores que levariam aos mesmos erros de investimento do banco Master em outras aplicações novas. As premissas que são veiculadas na mídia em relação ao investimento no banco Master têm um foco simplista de como os erros de investimentos ocorrem. Grandes canais como o próprio G1 mantém o foco em questões como “CDBs com taxas irreais” como exemplificado na matéria abaixo:

Pior ainda é o entendimento dos jornalistas a respeito das taxas emitidas pelo banco Master.

Aqui existe um erro claro de entendimento, não foi o banco Master que se financiou a 180% CDI e sim os investidores que desistiram de seus CDBs com taxas mais baixas e tomaram um desconto na venda do CDBs para as corretoras, que depois foi repassado a outros investidores com taxas melhores para que o ativo não permanecesse na tesouraria das corretoras. As taxas praticadas pelo banco Master eram bastante acima da média, mas ainda compatíveis com as de outros bancos de pequeno ou médio porte. A taxa não serve necessariamente como um alerta.
Importante entender o funcionamento das tesourarias:
As corretoras evitam permanecer por muito tempo com CDBs em suas tesourarias porque o fundo garantidor de crédito cobre apenas 250 mil por CPF ou CNPJ. Se estes investimentos permanecerem em volume grande na tesouraria das corretoras, isso gera um risco de crédito muito maior para a corretora cujo volume de CDBs é altíssimo quando comparado ao investidor pessoa física que dificilmente vai estourar o limite dos 250 mil. Por este motivo, quando um investidor sai de seu CDB antes do prazo de vencimento, ele toma um desconto. Este desconto torna a revenda do CDB atrativa para outros compradores, que recebem o desconto em forma de uma taxa mais alta, e diminui a chance da corretora de permanecer mais um dia com CDBs resgatados em sua plataforma.
É possível ter taxas mais altas de maneira segura?
Para aumentar a remuneração dos investimentos, sempre será necessário aumentar o risco do investimento em algum aspecto. No entanto, é notável a existência de uma grande quantidade de títulos no mercado de renda fixa de bancos menores que são sólidos, com taxas acima da média, e também de títulos de empresas muito grandes, lucrativas e financeiramente saudáveis. O verdadeiro desafio reside no fato de que investidores e até mesmo profissionais do mercado financeiro acabam tomando atalhos na escolha dos investimentos ao invés de investigar a qualidade intrínseca dos investimentos.
Alocação de CDBs e renda fixa geral: onde exatamente está o problema?
Lá vai a lista de problemas que eu já observei na hora de aplicar em renda fixa:
1. Investidores que usam as maiores taxas nas aplicações como tomada de decisão prioritária no investimento.
Esse é um dos principais motivos pelo qual o investidor vai cometer os mesmos erros futuramente em relação a alocação de renda fixa. Os investidores continuam comprando títulos de empresas cuja qualidade é completamente desconhecida só porque a taxa de rendimento é atrativa. Muitos tentam o atalho de usar Ratings, que seriam avaliações independentes de crédito, que sinceramente tem uma revisão bastante atrasada em relação aos eventos de crédito. O Rating do banco Master só foi revisado após a descoberta de fraudes e as agências de rating não foram úteis na fiscalização de fraudes. É recorrente o desejo dos investidores por investir em bancos que não dão lucro há mais de 4 anos e que se justificam apenas pelo rendimento da aplicação!
Artigo sobre agências de rating:
https://neofeed.com.br/negocios/na-crise-do-master-qual-e-o-papel-das-agencias-de-ratings/
2. Segurança do FGC é garantia erroneamente considerada como inquestionável.
Os investidores ainda se agarram no FGC como a mãe de todas as proteções em relação à segurança dos investimentos. Apesar do pagamento do Fundo Garantidor de Crédito integral aos clientes que foram afetados nos casos do banco Master, o FGC também demonstrou que não tem dinheiro o suficiente para tolerar muito mais tragédias de liquidação de bancos no mesmo porte do banco Master. Ainda assim, investidores deixam de olhar a qualidade dos bancos na hora de aplicar e também descartam empresas muito mais saudáveis com alavancagem baixa, bons lucros recorrentes e fluxos de caixa estáveis só porque os títulos não são cobertos pelo FGC.
É muito mais fácil uma empresa do setor de administração de imóveis com baixíssima alavancagem e resultados crescentes em todos os anos prosperar do que um banco pequeno que só oferece um ou dois poucos serviços financeiros com uma inadimplência alta e que pode ter a receita cortada em algum escândalo do INSS porque só trabalhava com consignados.
3. Falta total de transparência de alguns emissores de títulos de renda fixa.
Algumas empresas simplesmente não divulgam nada sobre sua saúde financeira.
Você não sabe se elas estão endividadas, se têm receita, lucro ou prejuízo. E isso não é ilegal — mas é extremamente arriscado. Existem raros casos de empresas que não publicam, mas que são acessíveis para informar os dados mediante solicitação, mas são pouquíssimas!
Os produtos de emissores sem transparência estão sendo oferecidos amplamente pelos grandes bancos e corretoras atualmente com êxito total. Os investidores não estão questionando as ofertas.
4. Falta de acompanhamento dos profissionais do mercado.
Contratar um atendimento especializado deveria resolver o problema, mas pelo número de profissionais de investimento que já conheci que distribuíram títulos de empresas com patrimônio negativo, endividamento altíssimo em relação ao caixa, geração de caixa e patrimônio, prejuízos sucessivos e outras sinalizações péssimas, é o meu entendimento de que o investidor tem que começar a cobrar a fiscalização dos investimentos e a entrega de informações públicas.
Não é aceitável que o investidor continue tendo acesso a investir em empresas com péssimos resultados ou sem nenhuma transparência. Muito menos sem um bom aviso.
Como eu posso observar se uma empresa é uma boa emissora de renda fixa?
Podemos procurar os dados financeiros das empresas através do site StatusInvest de maneira resumida e diretamente nos sites individuais das empresas. O site BancoData também é famoso pelos seus resumos dos dados financeiros dos bancos, no entanto, existe um grande atraso nas informações recebidas, além de ser apenas um material mais resumido e sem maior detalhamento.
O Bacen também tem alguns compilados de dados das instituições financeiras, caso o seu foco seja exclusivamente bancos.
A melhor fonte de informação é ir diretamente no site da empresa na seção de Relacionamento com Investidor, pois a documentação lá explica melhor a composição da atividade econômica do banco ou da empresa em questão.
O investimento no banco Master poderia ter sido evitado pelos investidores se eles tivessem feito essa consulta de dados financeiros?
Provavelmente não. Eu acredito nisso por um motivo muito simples. O que foi feito no Banco Master foi uma fraude de carteiras de crédito e em seus dados financeiros constavam bons resultados de lucro, de aumento de carteiras de clientes, de melhora das diversificações das receitas. A lição maior é não levar nenhum investimento como o principal responsável pelo crescimento do patrimônio dos investidores.
Olhem o site do Bancodata e os resultados (com um certo atraso) do banco Master que ainda constam lá:

No entanto, olhar estas informações de lucros, endividamento e caixa permitiu aos investidores evitar problemas de crédito da Raízen, Braskem, GPA, Oncoclínicas e vários outros emissores com dificuldades financeiras.Não é possível garantir que se pode sempre evitar fraudes, mas sempre é possível evitar empresas com dificuldades financeiras óbvias.
Eu acredito que a maioria dos investidores pessoa física, seus gerentes de banco e outros profissionais no mercado de investimentos invistam em renda fixa sem saber a qualidade da empresa que vai receber o dinheiro na hora da aplicação. Os investidores não sabem direito como estão as empresas para as quais estão enviando os recursos deles.
https://ooops.com.br/exclusivo-banco-do-brasil-vendeu-papel-podre-a-clientes/
Nesta semana que escrevo este texto, um cliente meu recebeu proposta do gerente do banco de aplicar em um CDB de um banco que está há mais de 4 anos dando prejuízo. Essa oferta de um produto de má qualidade e o evento do banco Master não são problemas pontuais do mercado financeiro. Existe um problema sistêmico e recorrente que fez com que investidores investissem também em Agrogalaxy, Grupo Pão de açúcar, Braskem, Raízen, Oncoclínicas e Light nos últimos anos.
Cabe a você, que está lendo, entender se está sendo bem acompanhado na sua instituição financeira ou se as indicações que você recebe são enviesadas. Fica aqui meu manifesto: vamos tornar o Banco Master uma aprendizagem única para que nenhum investidor seja pego de surpresa novamente! Compartilhe essa mensagem com um amigo ou conhecido que já investe e vamos tornar o mercado de investimentos um pouco mais saudável.
Quer conversar sobre esse tema?
Me encontra no Instagram: @joaograssini

